Economia azul transforma conservação em oportunidades para pequenos negócios no ES
Temporada das baleias no Espírito Santo encanta turistas e gera emprego para marinheiro, artesã e guia g1 "Eu vivo do mar". A frase resume a história do mari...
Temporada das baleias no Espírito Santo encanta turistas e gera emprego para marinheiro, artesã e guia g1 "Eu vivo do mar". A frase resume a história do marinheiro e empreendedor Ruan Nolasco Cardoso, proprietário de uma empresa de turismo náutico na Grande Vitória. O avô foi pescador, trabalhou no Porto de Vitória e no antigo sistema aquaviário da capital. O pai passou 35 anos embarcado em navios e plataformas de petróleo. Agora, é dele a missão de transformar o oceano em oportunidade de trabalho para uma nova geração. Foi olhando para a própria história da família que Ruan decidiu criar, em 2017, o Capitão Grilo, um negócio voltado aos passeios marítimos pelo litoral capixaba. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp "Meu avô fazia esse trabalho décadas atrás. Eu pensei: será que ainda existe espaço para isso hoje? Foi um resgate da história da minha família. Começamos pequenos e fomos crescendo junto com o turismo náutico no Espírito Santo". Hoje, além de comandar embarcações, ele oferece roteiros como a Rota dos Botos, passeios pelos manguezais e circuitos turísticos pela Baía de Vitória e pelo litoral sul do estado. Mas o empreendedorismo veio acompanhado da necessidade de estudar. "Passei a fazer cursos de guia de turismo, monitor de áreas naturais, condutor local e continuo buscando capacitações. O turismo exige conhecimento. A gente tenta despertar nas pessoas um sentimento de pertencimento sobre o nosso mar, nossos manguezais e nossa biodiversidade". 'Eu vivo do mar', o marinheiro e empreendedor Ruan Nolasco Cardoso, proprietário de uma empresa de turismo náutico no Espírito Santo. Arquivo pessoal LEIA TAMBÉM: QUER VER? Saiba como fazer passeios de observação de baleias com o início da temporada 'CPF CAPIXABA': quase 100 baleias-jubarte nasceram no litoral do ES em 2025 PESQUISA: Monitoramento busca salvar mamífero marinho mais ameaçado do Atlântico Sul CONHEÇA O CICLO: Por onde nadam as baleias-jubarte quando não estão no Brasil? A trajetória de Ruan traduz, na prática, um conceito que ganha força: a economia azul. Modelo de desenvolvimento que alia conservação ambiental, inovação e geração de renda por meio do uso sustentável dos recursos marinhos. E poucos exemplos representam melhor essa transformação do que a temporadas das baleias-jubarte. Todos os anos, entre junho e outubro, milhares delas deixam a Antártida para se reproduzir no litoral brasileiro. No Espírito Santo, além de encantar turistas, elas movimentam uma cadeia produtiva que envolve artesãos, marinheiros, guias de turismo, hotéis, restaurantes, agências de receptivo e pesquisadores. Artesã Erani de Oliveira Castro se inspirada na fauna marinha capixaba no Espírito Santo Carlos Alberto Silva/Rede Gazeta Do artesanato aos hotéis: quando a baleia gera renda Quando as baleias-jubarte chegam ao litoral capixaba, quem também comemora são pequenos empreendedores espalhados por toda a costa. Enquanto turistas embarcam em busca do encontro com as gigantes do mar, hotéis recebem hóspedes, restaurantes ampliam o movimento, artesãos vendem lembranças inspiradas nas baleias e guias turísticos trabalham em ritmo intenso. O espetáculo da natureza ajuda a movimentar uma cadeia econômica que cresce ano após ano e mostra, na prática, como a conservação ambiental pode gerar renda. Em 2025, o Festival da Baleia em Vitória, evento cultural dedicado à espécie, gerou cerca de R$ 250 mil em receita para artesãos e comerciantes locais. Artesã Erani de Oliveira Castro se inspirada na fauna marinha capixaba no Espírito Santo Arquivo pessoal Em Vila Velha, a designer e artesã Erani de Oliveira Castro, criadora do Estúdio Ira, sente os efeitos da temporada todos os anos. Inspirada na fauna marinha capixaba, ela produz cangas, lenços e outros produtos que retratam espécies encontradas no litoral do estado. Durante o período de observação das baleias, as vendas aumentam cerca de 90%. "A maior parte das vendas é de produtos inspirados nas baleias. As pessoas querem levar uma lembrança dessa experiência e conhecer mais sobre esses animais", contou a artesã. Para Erani, o interesse dos visitantes vai além dos passeios embarcados. "As pessoas querem adquirir produtos da temporada, querem conhecer mais. Até já pensei em trabalhar em algum ponto perto dos embarques para a observação das baleias, mas mesmo de longe já tenho muito trabalho e encomendas", contou Erani que já está trabalhando com coleção nova para 2026. O movimento mostra como a presença das jubartes ultrapassa o turismo de observação e alcança outros setores da economia criativa, gerando renda para pequenos empreendedores que encontram no mar uma fonte de inspiração e sustento. Quando preservar gera negócios "As baleias talvez sejam o exemplo mais simbólico de transformação que a economia azul pode causar em nossa sociedade". A afirmação é do ambientalista Thiago Ferrari, coordenador do Projeto Amigos da Jubarte. Segundo ele, poucas atividades representam tão bem a mudança de paradigma que ocorreu nas últimas décadas. Thiago Ferrari é ambientalista e faz parte do Projeto Amigos da Jubarte no Espírito Santo Arquivo pessoal "Antes eram caçadas para exploração do óleo e da carne. Hoje, geram emprego e renda através do turismo de observação, de forma sustentável e sem retirar nenhum animal da natureza". Para Ferrari, esse desenvolvimento econômico só foi possível graças ao conhecimento científico produzido no Espírito Santo. Desde 2020, o Hub Científico Jubarte.Lab, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), utiliza drones, hidrofones e metodologias inovadoras para monitorar baleias e golfinhos na costa capixaba. A iniciativa colocou o estado entre as principais referências brasileiras em pesquisa de cetáceos e ajudou a consolidar o Espírito Santo como destino internacional para observação de baleias. "Esse estudo é feito de forma colaborativa. Além do desenvolvimento de metodologias altamente tecnológicas, essa parceria garante uma produção científica capixaba de vanguarda, fortalece pesquisadores vinculados às instituições locais e coloca o Espírito Santo em posição de destaque internacional na conservação de baleias e golfinhos". Ferrari lembra que pesquisas abriram caminho para o turismo. "Primeiro foi preciso entender por onde essas baleias passam, onde elas se concentram e quando chegam ao litoral capixaba. Hoje, conseguimos oferecer passeios com praticamente 100% de chance de avistamento entre julho e outubro". Sesc de Praia Formosa em Aracruz, no Espírito Santo Rodrigo Gaviorno 🐋 Os números da economia azul com as baleiasas De acordo com dados do Projeto Amigos da Jubarte, em 2025, as ações ligadas ao turismo de observação de baleias resultaram em 17 embarques turísticos, 265 visitantes embarcados, 132 avistamentos de baleias e 26 de golfinhos. As capacitações promovidas para o setor alcançaram 514 pessoas, das quais 327 receberam certificação. Durante o Festival da Baleia, artesãos e comerciantes movimentaram cerca de R$ 250 mil em receitas. 👥 265 turistas embarcados 🐋 132 avistamentos de baleias 🐬 26 avistamentos de golfinhos 🌊 354 cetáceos registrados 🎓 514 pessoas inscritas em capacitações para o turismo ✅ 327 profissionais certificados 💰 R$ 250 mil em receita para artesãos 📲 150 mil pessoas alcançadas pelas ações de divulgação Pesquisadores do Espírito Santo fazem intercâmbio e explicam o ciclo das baleias no mar. Reprodução Conhecimento virou ferramenta de desenvolvimento Muito antes da atividade ganhar força comercial, os Projeto Amigos da Jubarte e o Instituto Baleia Jubarte investem na preparação da cadeia produtiva. Eles promovem capacitações técnicas para agências de turismo, operadoras, guias, mestres e proprietários de embarcações, representantes do turismo receptivo e profissionais da rede hoteleira. As capacitações são realizadas em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Durante os treinamentos, os participantes recebem orientações sobre biodiversidade marinha, biologia e ecologia dos cetáceos, legislação ambiental, técnicas corretas de aproximação das baleias e conceitos de turismo receptivo e regenerativo. O aprendizado é complementado com uma saída embarcada de observação de baleias e golfinhos, permitindo que os participantes vivenciem na prática os conteúdos apresentados em sala. Agentes passam por capacitação com o apoio do Sebrae no Espírito Santo e Rio de Janeiro Divulgação/Amigos da Jubarte Quem escolhe as baleias movimenta toda a economia Para o coordenador do Núcleo de Turismo do Sebrae/ES, Leandro Tononi, a observação de baleias se consolidou como um produto turístico capaz de movimentar diferentes segmentos econômicos. "Quando um visitante decide vir ao Espírito Santo para observar baleias, ele movimenta hospedagem, alimentação, transporte, comércio, passeios e serviços turísticos. Toda a cadeia é beneficiada". Segundo Tononi, a atividade passou por um processo de profissionalização nos últimos anos. "Hoje temos embarcações específicas, equipes capacitadas e empresas estruturadas para oferecer uma experiência segura e de qualidade". O impacto é percebido também pelos meios de hospedagem. O proprietário do Artsy Vitória Hostel, o turismólogo Felipe Silva Santos acompanha o projeto desde os primeiros anos e acredita que as baleias ajudaram a colocar Vitória no mapa do ecoturismo brasileiro. "Esse projeto foi muito importante para dar visibilidade ao turismo ecológico e de aventura. As baleias viraram um símbolo do Espírito Santo e ajudam a mostrar para o Brasil e para o mundo a riqueza do nosso litoral". 'CPF capixaba': quase 100 baleias-jubarte nasceram no litoral do ES em 2025 Segundo ele, pesquisadores e turistas hospedados no hostel acabam conhecendo o projeto e incluindo a observação das jubartes no roteiro da viagem. "Elas já representam muito mais do que um passeio. Estão se tornando parte da identidade cultural do estado assim como a moqueca e o congo", disse. Felipe contou que o hostel fica sempre movimentado e tem orgulho do que faz por tudo e por 10 famílias dependerem da empresa dele. Para Mônica Velasques, diretora de Hospitalidade, Turismo e Lazer do Sesc Espírito Santo, a força econômica das baleias está justamente na capacidade de atrair visitantes fora da alta temporada. "A temporada de observação de baleias ocorre entre junho e novembro e ajuda a reduzir a sazonalidade do turismo. Isso gera fluxo adicional de visitantes e movimenta hotéis, pousadas, restaurantes, agências, transportadoras e diversos serviços ligados à cadeia produtiva do turismo". Segundo ela, a atividade cria um motivo concreto para a viagem e fortalece o posicionamento do estado como destino de natureza e experiências. "O grande valor da temporada das baleias não está apenas na ocupação dos hotéis durante os passeios, mas na capacidade de transformar um recurso natural em um produto turístico sustentável, capaz de gerar receita, emprego e visibilidade para o destino durante vários meses do ano", explicou Mônica. Muito além do passeio A guia de turismo Tatiana Sarmento Noronha, bacharel em Direito e pós-graduanda em Direito Ambiental, acompanha os turistas desde a recepção até o desembarque durante as expedições. Guia de turismo Tati Sarmento com grupo de turistas no Espírito Santo Arquivo pessoal Ela participa da operação desde o início da atividadeda Agência Aves. "Faço toda a parte operacional, desde a recepção até o desembarque dos turistas. Eu costumo dizer que ganho para fazer o que gosto". Segundo ela, poucas experiências provocam tanta emoção. "Quando a primeira baleia aparece, muitos ficam em silêncio. Depois vêm os aplausos, o choro e a alegria. É uma conexão muito forte com a natureza". A guia conta que a reação dos visitantes costuma se repetir a cada saída. "Eles ficam impactados com o tamanho das baleias. Quando elas saltam, batem as nadadeiras ou aparecem com os filhotes, a emoção é muito intensa. Muitas pessoas choram. É uma sensação difícil de mensurar". Tatiana destaca ainda que cada passeio na agência onde trabalha também funciona como uma experiência de educação ambiental. Além das explicações sobre biologia e conservação, todas as expedições contam com pesquisadores a bordo, responsáveis por orientar os passageiros e acompanhar o cumprimento das normas estabelecidas pelos órgãos ambientais e pela Capitania dos Portos, garantindo a segurança da atividade e o respeito aos animais. Regras Para realizar os passeios, as agências de turismo devem estar cadastradas no Cadastur. Os barcos de precisam respeitar algumas regras durante a observação das baleias, como manter distância de 100 metros da baleia ou do golfinho, e 200 metros se o animal estiver com filhote. A observação deve ser feita, no máximo, por 30 minutos para cada animal. Além disso, o barco não pode perseguir a baleia e caso o animal se aproxime muito da embarcação, deve ficar com o motor ligado e desengrenado. Turistas se encantam ao obeservar baleias no Espírito Santo Beatriz Marins Baleias como indutoras do turismo O oceanógrafo Paulo Pinheiro Rodrigues, do Instituto Baleia Jubarte, afirma que a observação de baleias é uma das iniciativas mais bem-sucedidas de transformação da conservação ambiental em desenvolvimento econômico. "O Projeto Baleia Jubarte promove pesquisa, conservação, educação ambiental e fomenta o ecoturismo como alternativa sustentável. Geramos trabalho e renda em torno da imagem das baleias e do ambiente marinho". Segundo ele, a atividade ajuda a reduzir a sazonalidade do turismo no estado. "As baleias são indutoras do destino. Muitas pessoas escolhem viajar para a Grande Vitória especificamente para participar dos passeios". Paulo destaca que a atividade vem atraindo investimentos públicos e privados, desde embarcações adaptadas para o transporte de passageiros até novos espaços de educação ambiental. A expectativa do Instituto Baleia Jubarte é que cerca de 2 mil turistas embarquem rumo às baleias na temporada de 2026. Paulo Pinheiro Rodrigues é oceanógrafo e integra o Instituto Baleia Jubarte no Espírito Santo Arquivo pessoal Estratégia para o futuro Para o secretário estadual de Turismo, Luciano Machado, a observação de baleias já se consolidou como um dos produtos turísticos mais promissores do Espírito Santo. "Temos um patrimônio natural extraordinário. A observação de baleias fortalece nossa imagem como destino de natureza e amplia a movimentação econômica em diversas regiões do estado". Em Aracruz, onde os passeios também começam a ganhar espaço, o secretário municipal de Meio Ambiente, Aladim Cerqueira, vê nas jubartes um dos principais ativos naturais do município. "O crescimento da observação de baleias tem sido incentivado dentro de uma estratégia de economia azul e desenvolvimento sustentável. Hoje elas representam um patrimônio natural que precisa ser valorizado". Segundo ele, o município vem investindo em iniciativas ligadas à conservação e à valorização dos recursos naturais, incluindo parcerias para ampliar a divulgação das baleias como atrativo turístico. Artesã Erani de Oliveira Castro se inspirada na fauna marinha capixaba no Espírito Santo Arquivo pessoal O oceano como oportunidade Para Ruan Nolasco, que cresceu ouvindo histórias do avô pescador e do pai embarcado em navios, as baleias representam mais do que um atrativo turístico. "Elas mostram que é possível viver do mar sem destruir o mar". No Espírito Santo, a economia azul vem justamente mostrando esse caminho. Onde antes havia exploração dos recursos naturais, surgem oportunidades ligadas à conservação. E, a cada inverno, quando as jubartes retornam ao litoral capixaba, ajudam a movimentar uma cadeia que transforma natureza preservada em trabalho, renda e desenvolvimento a partir do oceano. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo