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'O cigarro estava me dominando': servidor público conta o que mudou no corpo, no bolso e na rotina após um ano sem fumar

Eduardo Meirelles é servidor público e completou um ano sem fumar Acervo pessoal Por quase 30 anos, o tabagismo ditou a rotina de Eduardo Meirelles, de 47 anos:...

'O cigarro estava me dominando': servidor público conta o que mudou no corpo, no bolso e na rotina após um ano sem fumar
'O cigarro estava me dominando': servidor público conta o que mudou no corpo, no bolso e na rotina após um ano sem fumar (Foto: Reprodução)


Eduardo Meirelles é servidor público e completou um ano sem fumar Acervo pessoal Por quase 30 anos, o tabagismo ditou a rotina de Eduardo Meirelles, de 47 anos: ele acendia o primeiro cigarro logo depois de acordar, antes mesmo de beber um copo d’água. "Quando eu acordava, a primeira coisa que eu fazia era acender um cigarro. Eu ia trabalhar, passava 20 minutos, tinha que descer para fumar de novo”, relembrou. Tudo mudou há pouco mais de um ano, quando o servidor público de Cariacica, na Grande Vitória, decidiu que era hora de vencer a dependência. Em setembro deste ano, ele completou um ano sem fumar — e as mudanças foram sentidas no corpo, no bolso e na rotina. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp “Eu comecei a perceber que o cigarro estava me dominando, nas minhas decisões e tarefas mais simples até nas coisas mais planejadas. Foi aí que eu decidi parar”. Dois maços por dia e até R$ 1,2 mil por mês Eduardo começou a fumar aos 15 anos e, cerca de três décadas depois, consumia ao menos dois maços de cigarros por dia. Nos fins de semana, quando saía para beber, eram quase 3 — cerca de 60 cigarros em um único dia. Os gastos eram elevados: segundo o servidor público, a dependência custava aproximadamente R$ 300 reais por semana, o que significava uma despesa de R$ 1,2 mil por mês. A vontade de parar com o hábito surgiu aos poucos, quando até realizar tarefas prazerosas se tornou difícil pelo desejo de nicotina. “Eu comecei a fazer viagens para o Rio de Janeiro, para acompanhar o Vasco, e comecei a perceber que era escravo do cigarro. Eram oito horas dentro do ônibus, e eu fumava uns cinco cigarros de uma vez antes do trajeto. Quando o ônibus parava, eram mais uns 4, naquela angústia de ficar preso [no ônibus]. Muitas vezes deixava de ir pela quantidade de horas que ficava sem fumar”, desabafou. Outro momento de reflexão também ocorreu durante uma viagem de avião. “Tive que fazer uma escala. Eram apenas duas horas, mas eu saí do aeroporto para fumar. Eu comecei a perceber que o cigarro estava me dominando. Eu não ia a locais onde não podia fumar”, destacou o servidor público. Tratamento no SUS e apoio em família Após uma tentativa frustrada de vencer o vício sozinho, Eduardo viu uma oportunidade de mudança surgir ao entrar em uma turma do Programa de Apoio à Pessoa Tabagista (PAPT) em uma Unidade Básica de Saúde de Cariacica. Ele, no entanto, não fez a inscrição sozinho: a sobrinha-neta dele, a assistente de Educação Infantil Ana Paula Meireles de Almeida, de 41 anos, decidiu entrar no mesmo grupo. Assim como o tio, Ana Paula começou a fumar na adolescência, aos 15 anos, e viveu dois terços da vida sob a dependência da nicotina. A motivação para buscar ajuda surgiu, também, de tragédias familiares: a mãe e a tia morreram precocemente, aos 45 e 47 anos, em decorrência de câncer. “Eu perdi minha mãe e minha madrinha por conta do cigarro. O meu principal motivo para parar foi o medo de morrer e a vontade de viver com saúde para ver meus três filhos crescerem e conhecer meus netos, algo que minha mãe não pôde fazer”, contou Ana Paula. A parceria entre tio e sobrinha foi além das reuniões semanais do grupo terapêutico no posto de saúde. No cotidiano, a convivência diária foi o pilar para resistir aos momentos mais críticos do tratamento. “O apoio dele foi fundamental. A gente passava a semana esperando a reunião do grupo no posto, mas eu e ele estávamos juntos todos os dias. Quando eu pensava em ter uma recaída, conversava com ele. Ninguém queria decepcionar o outro nem deixar a bola cair”, disse a funcionária pública. Eduardo Meirelles e a sobrinha-neta, Ana Paula Meireles de Almeida, entraram para a mesma turma do Programa de Apoio à Pessoa Tabagista, no Espírito Santo Acervo de família Entre as opções de datas apresentadas pelos profissionais de saúde para interromper definitivamente o hábito, Eduardo escolheu a última do prazo. Segundo ele, os primeiros dias foram marcados pelo estresse e pela irritabilidade típicos da síndrome de abstinência. “O primeiro, o segundo e o terceiro dia foram muito difíceis. Mas o momento mais curioso foi lá depois do 15º dia, quando foi como se o cigarro estivesse conversando comigo. Mas eu preferi não ceder. O grupo e a troca com a minha sobrinha me deram forças para seguir”. Mudanças no corpo, no bolso e na rotina Ao deixar de fumar, as transformações na saúde física e na disposição do servidor público foram imediatas. Segundo Eduardo, a melhora no olfato e no paladar veio acompanhada do fim do cheiro constante de tabaco, do cansaço e da sensação de pigarro na garganta. Praticante de futebol nos fins de semana, ele sentiu o impacto direto da recuperação respiratória no esporte: antes de parar de fumar, Eduardo aguentava jogar por apenas um minuto e ficava exausto — com um mês de tratamento, já conseguia disputar a partida inteira de sete minutos sem cansaço excessivo. “O Eduardo de hoje para o Eduardo de um ano atrás diria: ‘Muito obrigado por ter tomado essa decisão’. A minha mudança de vida foi de 100% em termos de paladar, olfato, respiração, cansaço e disposição. É uma mudança muito positiva”, comemorou o servidor. Além da saúde do corpo, o impacto no bolso reestruturou o orçamento de Eduardo, que estima ter economizado entre R$ 10 mil e R$ 12 mil durante os doze meses sem comprar cigarros. A quantia poupada serviu como combustível e recompensa para a mudança de vida. Vascaíno, Eduardo usou o dinheiro economizado para comprar duas camisas oficiais recém-lançadas pelo clube e viajar ao Rio de Janeiro para assistir às semifinais da Copa do Brasil. “Foi uma das coisas a que eu me apeguei”, disse. LEIA TAMBÉM: Humorista Renato Albani revela diagnóstico de paralisia de Bell: 'parece que tomei anestesia de dentista'; VÍDEO Miss Espírito Santo descobre mastite e vai parar na UTI após bactéria se alojar no silicone: 'Eu era uma bomba-relógio' Esquecimento e queda de moto levaram paciente do ES a descobrir mesma doença rara de Lito Sousa Por fim, a rotina do servidor também mudou. Se antes a ansiedade pela nicotina o fazia evitar locais fechados ou sofrer durante trajetos longos de ônibus, hoje ele viaja sem preocupações e voltou a frequentar salas de cinema e bares. “Hoje eu viajo tranquilo, vou aos meus jogos do Vasco sem nenhuma preocupação com o ônibus. É muito gratificante. Eu fui a lugares que, antigamente, eu não iria, como poder assistir a um filme no cinema ou ir a um bar fechado”, contou. Para quem deseja vencer a dependência da nicotina, o conselho de Eduardo é dar o primeiro passo e não ter vergonha de buscar acompanhamento profissional. “Lá atrás eu achei que seria impossível, mas a pessoa é capaz, ela consegue. E não deve ter vergonha alguma de buscar ajuda profissional. Começa com um minuto, depois passa para dez, para uma hora, para um dia, para uma semana, para um mês e daqui a pouco tem um ano”. Eduardo Meirelles usou o dinheiro economizado com o fim do tabagismo para viajar e assistir uma partida do Vasco, seu time do coração Acervo pessoal O que acontece com o corpo ao parar de fumar? Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), os benefícios do abandono do tabaco começam poucos minutos após o último cigarro e continuam ao longo dos anos, reduzindo progressivamente os riscos de doenças graves. Após 20 minutos: a pressão sanguínea e a pulsação voltam aos níveis normais. Após 2 horas: a nicotina deixa de circular na corrente sanguínea. Após 8 horas: a oxigenação do sangue é normalizada. Após 12 a 24 horas: a função pulmonar começa a apresentar melhora. Após 2 dias: o olfato volta a perceber os cheiros com clareza e o paladar recupera a capacidade de degustar os alimentos. Após 3 semanas: a circulação sanguínea melhora e a respiração se torna visivelmente mais fácil. Após 1 ano: o risco de morte por infarto do miocárdio cai pela metade. Após 10 anos: o risco de sofrer um infarto passa a ser igual ao de uma pessoa que nunca fumou. Especialistas reforçam que parar de fumar vale a pena em qualquer fase da vida, mesmo para quem já apresenta doenças associadas ao tabagismo, como câncer, enfisema ou AVC. Risco de morte por câncer de pulmão Arte/g1 Como buscar tratamento gratuito A história de Eduardo e Ana Paula reflete um movimento em crescimento no Espírito Santo. Segundo dados do Programa Estadual de Tabagismo (PET), coordenado pela Secretaria da Saúde (Sesa), 5.277 pessoas procuraram tratamento para parar de fumar pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado em 2025. Ainda de acordo com a pasta, o número representa um aumento em relação a 2024, quando foram registrados 5.123 atendimentos — uma alta de cerca de 3%. A maior parte dos atendidos está na faixa etária entre 18 e 59 anos. O atendimento para o público é integrado e gratuito, articulado pelo Ministério da Saúde por meio do Instituto Nacional de Câncer (INCA). O Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT) é oferecido gratuitamente na rede pública em parceria com estados e municípios, e o tratamento é realizado por equipes multidisciplinares na Atenção Primária à Saúde. Servidor público conta o que mudou na saúde, na rotina e no bolso após 1 ano sem fumar O acompanhamento combina terapia cognitivo-comportamental em grupo — com orientações e estratégias para reconhecer gatilhos e evitar recaídas — e avaliações clínicas individuais. Conforme o grau de dependência de nicotina de cada paciente, o SUS também disponibiliza medicamentos gratuitos, como adesivos transdérmicos, gomas de mascar e bupropiona. Passo a passo para conseguir ajuda: Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS): o primeiro passo é ir ao posto de saúde mais próximo de sua residência e se informar sobre as turmas do programa de tabagismo. Avaliação inicial: o morador passa por uma consulta para avaliar o histórico de consumo do cigarro e o nível de dependência de nicotina. Acompanhamento: o paciente é encaminhado para os grupos de apoio terapêutico e, se houver indicação médica, recebe os insumos e medicamentos. No Espírito Santo, a lista completa dos municípios que oferecem o serviço, com locais, telefones e horários de atendimento, pode ser consultada diretamente no site da Sesa. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo