Saiba como os novos agrotóxicos liberados em 2019 afetam a comida

O país liberou o uso de 197 novos agrotóxicos desde o início do ano. A ação gerou discussão sobre quais são os níveis aceitáveis do uso desses produtos e de como isso pode afetar a alimentação.

Todos esses agrotóxicos foram aprovados pela Anvisa. Segundo o órgão, os riscos, quando existem, estão relacionados ao cultivo e não ao consumo de alimentos.

“Todo produto, quanto é registrado, passa por uma avaliação de risco dietético. Nessa avaliação, são considerados os resíduos deixados nos alimentos para manter a segurança de consumo”, explica Carlos Alexandre Gomes, gerente-geral de toxicologia da Anvisa.

“A preocupação é com o trabalhador rural, porque é quem realmente pode se expor a quantidades um pouco maiores do produto”, completa.

Os agrotóxicos, que são produtos utilizados nas plantações para combater pragas, promovem certa toxidade aos alimentos, mas ela é muito maior em quem aplica o produto, segundo o toxicologista Daniel Dorta, professor de toxicologia do Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP-Ribeirão Preto.

“O principal problema em relação aos agrotóxicos é seu uso de forma não indicada. Por exemplo: utilizá-lo em uma cultura para o qual ele não é indicado ou utilizá-lo em concentração maior do que a recomendada”, afirma.

Ele explica que essa concentração maior não significa que foi colocada uma quantidade maior do produto, mas sim que não foi respeitado o período de quarentena, que é o espaço de tempo entre o momento em que o produto é aplicado na cultura e que o alimento possa ser colhido e disponibilizado para consumo. “Por exemplo: era preciso esperar 40 dias, mas, em 15, já foi feita a colheita”, diz.

Mais usado no Brasil, Glifosato é controverso

O Greenpeace divulgou, por meio de nota, que 26% dos agrotóxicos liberados no país já foram banidos pela União Europeia. A entidade também chama a atenção para novos produtos contendo glifosato, agrotóxico mais utilizado no país.

“O glifosato no Brasil foi reavaliado e, assim como em outros países, a decisão foi pela permanência”, afirma o gerente-geral de toxicologia da Anvisa.

Já o toxicologista da USP ressalta que o glifosato é controverso. Trata-se de um herbicida para combater as ervas daninhas que competem com a cultura principal.

“O glifosato é classificado como grupo 2A pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como potencialmente cancerígeno para humanos”, afirma.

Neste ano, um júri de São Francisco, nos Estados Unidos, decidiu que esse agrotóxico foi um “fator importante” no desenvolvimento do câncer em um homem.

Outro agrotóxico controverso entre os liberados está o fipronil. Segundo o Greenpeace, esse agrotóxico é nocivo para abelhas e outros polinizadores. O toxicologista confirma. “É verdade. Ele é utilizado para dizimar todas as pragas, inclusive abelhas. Também pode ser tóxico para o ser humano. O fipronil também está classificado no grupo 2 do IARC”, afirma.

Resíduos podem ser minimizados

Para minimizar os resíduos de agrotóxicos nos alimentos, que são mínimos e não nocivos à saúde, segundo a Anvisa, o toxicologista orienta a retirar a casca das frutas, por exemplo. “Porém vai perder também muitos nutrientes”, ressalta.

Outra medida é deixar de molho em água com bicarbonato de sódio. A medida é meia colher de sopa para um litro de água por 20 minutos, segundo ele. O toxicologista explica que o hipoclorito é indicado para combater micro-organismos, como vírus e bactérias, e prevenir infecções.

Já o bicarbonato de sódio, segundo ele, minimiza os efeitos de praguicidas. “Tem a capacidade de degradar substâncias químicas, como praguicidas. Não elimina, mas auxilia no processo de redução da concentração encontrada”, afirma.

“Já o hipoclorito é utilizado em situações como: comprei uma verdura da horta perto de casa. Será que ali está tendo contaminação com micro-organismo patogênico?”, completa. O uso de hipoclorito é de 20 gotas para 1 litro de água por 20 minutos.

Segundo ele, entre os alimentos com maior concentração de agrotóxicos estão o morango, por ser poroso, pepino e tomate.

Ele explica que, em análises desse tipo são batidos o fruto inteiro, inclusive com casca. “Por exemplo: entre os alimentos com maior concentração de agrotóxicos está o abacaxi. No entanto, retira-se sua casca para o consumo. Portanto, no momento da alimentação, ele não estará tão concentrado como no resultado dessas análises”, orienta.